Esqueça comparações com Pelé e outras lendas do futebol. Maradona foi, de longe, uma das figuras mais marcantes do esporte mundial. Irreverente, polêmico, sincero, carismático e acima de tudo argentino.
Neste texto, nos interessa apenas os bons momentos de sua carreira. Foram tantos que nos renderia mais de uma publicação. O menino franzino e baixinho do time juvenil do Argentinos Juniors, Los Cebollitas, se destacou tanto que precisou apenas de uma breve temporada pelo clube para ser requisitado ao Boca Juniors.

(Reprodução: Twitter)
Desde criança, como todo humilde cidadão latino-americano, seu sonho era ser jogador de futebol e atuar na seleção de seu país. Por ironia do destino, sua ambição foi mais além e por intermédio de forças sobrenaturais quisera o tempo que ele se tornasse o “mais humano dos deuses”.
Sua campanha em La Bombonera lhe rendeu até uma estátua na frente do estádio e uma cadeira cativa ao lado da torcida “La 12”. Com propostas promissoras da Europa, rapidamente foi transferido ao Barcelona, clube que atuou durante dois anos (1982 -1984).
Mas somente em 1984, Diego iria se tornar um verdadeiro “Dios” para seus torcedores, com uma passagem magistral pelo Napoli (1984 – 1991). O time napolitano tem tanta gratidão por Maradona que hoje, horas depois do anúncio de sua morte, o prefeito de Nápoles decide homenageá-lo com o nome do estádio do clube.

Ovacionado pelo público pela genialidade de seus dribles e jogadas únicas, Maradona também foi exemplo na luta representativa de seu povo. Diego era apaixonado pelas pessoas e se solidarizou diante das repressões sofridas pelos seus.

(Reprodução: Twitter)
Ele tinha ciência do tamanho de sua voz, embora medisse 1,65 de altura. O planeta parou para admirá-lo em 1986, quando o camisa 10 reservou toda sua audácia para conquistar uma Copa do Mundo pela Argentina. Sua ousadia foi tanta que até um gol de mão passou a ser imortalizado.
Anos mais tarde, quando questionado sobre o gol que lhe rendeu o apelido de “La Mano de Dios”, o meia argentino teria respondido: “Se fosse contra qualquer outra seleção, o árbitro poderia intervir, mas foi contra a Inglaterra, quer revanche melhor que esta?”.
Se descontextualizada, sua resposta poderia ser alvo de ataques e críticas negativas ao craque. Contudo, naquele período a Argentina ainda guardava mágoas pela derrota da Guerra das Malvinas, um conflito político e territorial com a Inglaterra ocorrido em 1982.
Simbolicamente, o confronto entre ambos representava mais que uma simples classificação para a final do torneio de Copa do Mundo. Para Maradona era a chance de resgatar o orgulho da população que, até 1983 era vítima de uma brutal ditadura.

O sorriso, a garra, a malandragem e o espírito coletivo fizeram daquele time, um marco de felicidade e resistência para os cidadãos argentinos. Os hermanos viram nele, um líder carismático, uma persona exemplar perante as futuras gerações.
Esta e muitas outras narrativas compõe a jornada do herói que jamais se calou diante das injustiças sociais. Um refém das drogas é verdade, mas como diz a canção La Mano de Dios, de Rodrigo Bueno : “Si Jesús tropezó, por qué él no habría de hacerlo?”
Talvez a morte do camisa 10 argentino retrate a perda de um sujeito nobre, simples, cativante e combatente. Um bandido de sorrisos, um poeta da bola, um defensor da soberania da América do Sul. Contraditório, problemático, intenso, herói e vilão. Amigo daqueles que não tem voz, por se identificar com quem assim como ele ascendeu vindo da pobreza.
Don Diego Armando Maradona é a identidade da essência latina. Fez das quatro linhas, seu gigantesco palco. Agora o show continua, sem a presença do protagonista, mas com um enorme legado deixado aos amantes da bola.
“Si me muero, quiero volver a nacer y quiero ser futbolista. Y quiero volver a ser Diego Armando Maradona. Soy un jugador que le ha dado alegría a la gente y con eso me basta y me sobra” – Diego Maradona.
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